sábado, 24 de agosto de 2013

Primeira mesa do dia 23 trata da luta de classes e movimentos marginalizados

Luta de classes e movimentos marginalizados são temas no Encontro da Articulação Paranaense por Educação do Campo
Yvi Leíse Rosa Calvani
Acadêmica de jornalismo da Universidade Estadual de Londrina (UEL)


Foto: Acadêmicas de jornalismo da UEL

O Encontro Estadual da Articulação Paranaense Por Uma Educação do Campo abordou na manhã de sexta-feira, dia 23, a “Agricultura Familiar e Camponesa no contexto da luta de Classes”. Representantes de entidades da Associação de Estudos, Orientação e Assistência Rural (Assesoar), Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Paraná (FETAEP) e Instituto Federal do Paraná (IFPR) estiveram presentes para debater o tema.
Valdir Soares, da Assesoar, foi um dos palestrantes da mesa. Dentre os diversos pontos discutidos, Soares destacou que houve um crescimento educacional desde o encontro realizado em Porto Barreiro, mas um dos desafios ainda enfrentados é falar menos dos avanços e mais do que é necessário aprimorar.
Alguns aspectos pontuados por Soares foram o crescimento desenfreado do capitalismo e o poder de riqueza que manipula e domina consciências. “O capitalismo tira a riqueza de duas formas: pressão sobre a condição econômica dos trabalhadores dos países periféricos e apropriação dos bens coletivos naturais como minérios, terra e água”, aponta.
Para Soares, houve mudança na política de governo, mas nunca houve mudança na acumulação do capital. Ele afirma que metade do orçamento anual brasileiro vai para os juros da dívida. Segundo estimativas, 43,98% dos recursos são destinados para os juros da dívida, enquanto apenas 3,34% ficam centrados à educação.
A questão da adaptação tecnológica também foi abordada pelo representante. “Enxada e foice nos constituíram, mas não são mais as ferramentas do campo”, aponta. Para ele, é necessário enxergar as mudanças e enfrentar os desafios oferecidos.
Finalizando a palestra, Soares lembra que a educação deve estar direcionada na historicidade (o que foi vivido é uma trajetória de luta e não pode ser esquecido) e totalidade (a educação faz parte do movimento da sociedade capitalista). O representante fez a questão de salientar que as muitas bandeiras vistas durante o encontro, algumas vezes são mais marketing do que desenvolvimento concreto. “Que esse não seja um evento que vira vento”, brinca.
A mesa teve continuidade com Márcio Serenini, da FETAEP. O representante focou sua palestra em três aspectos: conceituar a Federação, apontar o projeto de desenvolvimento rural e sustentável e mostrar as atividades desenvolvidas para educação no campo.
Serenini apontou a importância do Movimento Sindical dos Trabalhadores Rurais (MSTTR), que beneficiam mais de 20 milhões de trabalhadores rurais no Brasil, centralizados em mais de quatro mil sindicatos, estando 300 deles no Paraná.
Dentre as ações desenvolvidas pela FETAEP, Serenini destacou como fundamentais aspectos como a implementação de políticas publicas; os benefícios previdenciários; os direitos trabalhistas; a defesa da agricultura familiar e do modelo ambiental; o desenvolvimento territorial; a ampliação de cooperativismo de crédito; a valorização da mulher trabalhadora rural, jovens e idosos; o acesso à saúde, habitação e educação; a erradicação do trabalho escravo e infantil e a luta pela reforma agrária.
Como fechamento da rodada de palestras da manhã, o professor Roberto Souza Martins, da IFPR, tomou como foco os outros movimentos existentes e como são marginalizados. Para ele, a reconfiguração da luta agrária envolve povos de todas as comunidades do Paraná. “Se a gente não decifrar a realidade vai ser devorado por ela”, alerta.
A reconfiguração paranaense proposta por Martins aborda os confrontos e lutas territoriais de vários povos como os faxinalenses, pescadores artesanais e camponeses, ilhéus, ciganos, benzedeiras, membros do movimento caiçara, cipozeiros, indígenas e representantes de religiões da matriz africana. “Esses povos correspondem a um número de 800 mil pessoas que lutam por terras e direitos, mas são alvos de repressão, preconceito e violência” aponta.
Para o professor, a necessidade atual é de retraduzir, resignificar quem são esses novos sujeitos da luta política. “Os antagonistas sociais continuam sendo os mesmos e não conseguem mais combater os movimentos como combatiam quando eram posseiros” relata. Entre os antagonistas, são apontados o agronegócio, obras governamentais e a violência privada praticada por jagunços.
Segundo Souza, a repressão a esses grupos é acentuada, pois eles estão crescendo principalmente nas áreas de expansão do agronegócio. A cana, soja e o eucalipto plantado no Paraná correspondem uma área 10 vezes maior do que a área demandada pelos povos.
O alerta feito por Souza diz respeito a como a educação do campo vai ler esse contexto de movimentos e lutas? Como pensar a relação de ensino e aprendizagem desses grupos? O educador vai construir a relação a partir do momento que reconhecer as realidades de vida de tais povos.

Antes do fechamento da mesa da manhã, os assuntos foram abertos para perguntas à plenária. Questões sobre a privatização do ar, a relação de que o campo sozinho não puxa revolução, integração entre os movimentos, a percepção dos governos para essas novas necessidades campesinas, a comunicação entre os núcleos regionais de ensino e o repasse dos conhecimentos obtidos durante o encontro para as escolas foram colocadas em pauta pelos participantes da plenária, debatidas e respondidas pelos membros da mesa.

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